Esses microorganismos tão ambíguos

A pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Arailde Fontes Urben, se declara apaixonada por seu trabalho. Bióloga por formação e com mestrado em fitopatologia, ela se especializou em fungos. O interesse começou em 1967, quando um estágio no Instituto de Micologia de Recife a fez decidir sobre que ramo da biologia tomar. Depois do mestrado em Viçosa, Arailde fez o doutorado em Birmighan, Inglaterra. Sem qualquer medo de revelar a idade -ela completou 59 anos no dia 1º de dezembro - a micologista afirma categoricamente que não pára de trabalhar tão cedo. Responsável pela detecção de vários fungos exóticos que, se entrassem no país, destruiriam culturas inteiras, Arailde também tem paixão pelos fungos benéficos, os cogumelos. Até domingo (8), ela preside em Brasília o I Simpósio Internacional na Alimentação, Saúde, Tecnologia e Meio Ambiente no Brasil


C&T - Está comprovado cientificamente o poder de cura de alguns cogumelos?

Arailde - Isso é comprovado cientificamente não só em países como o Japão, que realiza estudos sobre cogumelos medicinais há muitos anos, quanto China, Estados e alguns países da Europa, que vêm desenvolvendo ou acompanhando esse tipo de estudo. Pesquisadores já verificaram por meio de testes realizados com animais e com seres humanos a eficiência do cogumelo no tratamento de diversas enfermidades, inclusive o câncer e a Aids.

C&T- Divulgar o poder de cura e o valor nutritivo dos cogumelos e incentivar sua inclusão na dieta são alguns dos objetivos do simpósio internacional que se realiza de hoje até o dia 8 de dezembro, em Brasília?

Arailde - Queremos também divulgar a técnica chinesa que usa capim no cultivo de cogumelo, ao invés de tora e serragem. Além disso, há o objetivo de promover o intercâmbio científico e tecnológico entre o Brasil e os países participantes. E esperamos que isso contribua para incentivar a população local a fazer uso dos fungos comestíveis na sua alimentação. Todos os países que foram convidados fazem uso de cogumelo, seja na dieta ou na medicina, há muito tempo. Na China, por exemplo, o cogumelo faz parte da medicina tradicional chinesa. Os chineses o consomem, como medicamento, há mais de dois mil anos. O Japão também consome cogumelos há milênios, o Vietnam, o Iraque, o Canadá, a Austrália e a Argentina, convidados para o evento, também o consomem há vários anos. Há pesquisadores, nesses país, que publicaram trabalhos científicos comprovando a eficiência de seus princípios ativos no combate a diversas enfermidades. Mas, outro objetivo igualmente importante desse simpósio é inserir o Brasil no contexto mundial do mercado de cogumelo, ou seja, no mercado de exportação. O maiores importadores são Japão e Estados Unidos. Por isso, queremos mostrar que produzimos linhagens de boa qualidade e que temos vantagens climáticas que eles não têm.

C&T - No simpósio há várias palestras que vão abordar os casos de sucesso do uso de cogumelo no tratamento de doenças. Que experiências poderiam ser exemplificadas?

Arailde - Por exemplo, o professor Ricardo Veronesi, que é médico infectologista, tem uma experiência longa com seus pacientes, usando o cogumelo no tratamento, fazendo testes, comparando inclusive os resultados com o tratamento tradicional, depois do uso de cogumelos. Jorge Laerte Gennari, que é ginecologista-oncologista, já fez estudos no Japão e nos Estados Unidos, acompanhando pesquisas com cogumelos medicinais, especialmente sobre o Agaricus Blazei. Ele atua nessa área há seis anos e tem experiência com pacientes seus portadores de câncer que fizeram tratamento com cogumelo e que foram curados. Inclusive os trabalhos de Gennari, com o protocolo seguido, já foram publicados em revistas internacionais.

C&T- Quais as espécies mais usadas na área medicinal?

Arailde - No Brasil, é o Agaricus Blazei e o Cogumelo Rei, embora não haja nenhum produtor no nível comercial de Cogumelo Rei. A matéria-prima vem da China e dos Estados Unidos. Há farmácias de manipulação, de São Paulo, que encapsulam ou preparam o xarope e, assim, é distribuído para várias farmácias do Brasil. Se houvesse produtores aqui, esse material iria ser manipulado por várias farmácias e repassado para o consumidor final a um preço mais barato.

Fonte: Portal da Cidadania – Ciências e Tecnologia. Obs: Matéria Editada: O assunto tem uma abordagem maior dando ênfase ao cultivo dos cogumelos.

[2008-03-24]

Jornal da tarde

O Brasil ignora o potencial curativo e econômico de uma espécie de cogumelo que, segundo cientistas japoneses, ajuda na prevenção e regressão do câncer. O alerta é do pesquisador Marcos Francoti, que lamenta a ausência de incentivo à pesquisa e à exploração do chamado "Agaricus Blazei", nativo do Brasil. Sua finalidade terapêutica foi descrita há 121 anos, no tratado científico Botânica Brasileira, de Joaquim Monteiro Caminhoá, que pertenceu à Faculdade de Zoologia e Botânica Médica do Rio de Janeiro. Passado mais de um século, amostras do cogumelo foram enviadas ao Instituto Iwade de Pesquisas, no Japão. A grande quantidade de proteínas encontrada neste alimento (entre 26% e 40%), outras vitaminas e substâncias importantes para a manutenção da saúde, despertaram a atenção de médicos e cientistas japoneses" - disse Francoti citando o professor do Departamento de Bioquímica Aplicada da Universidade de Shizuokada, Takashi Mizuno.

[1998-06-29]


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